SEJAM BEM VINDOS A ESTE BLOG

Nota Prévia :

Este Blog destina-se exclusivamente à divulgação de trabalhos escritos por mim para meu prazer e daqueles que eventualmente estivessem interessados na sua leitura.

Felizmente, foram muitos os que se me dirigiram a pedir que divulgasse alguns dos meus trabalhos, especialmente os que mais me marcaram ao longo da minha vida, daí ter feito uma escolha selectiva de entre todos eles, muitos ficando de fora, naturalmente .

Foi por esse motivo que surgiu este Blog .

Muitos desses trabalhos já haviam sido publicados em periódicos e revistas da especialidade e não só, muitos deles além fronteiras ( EUA e BRASIL ), e alguns chegaram mesmo a ser galardoados em Concursos de Contos e Poesias e diversos Jogos Florais .

À medida em que forem inseridos neste Blog, tentarei informar quais os já anteriormente publicados, onde e quando e se tiverem sido galardoados, quais os prémios que lhes foram atribuidos e quais as Organizações envolvidas .

Espero que a memória não me falhe e os meus apontamentos não estejam incompletos.

Ericeira, 20 de Janeiro de 2011

Carlos Jorge Ivo da Silva

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

DIA DE PESCARIA


Baloiçando estava um barco no Gajeiro
e dentro dele três pescadores sentados,
poita no fundo, pescas c'os anzóis iscados,
negros carvões a arder no fogareiro . . .

Já passava do meio do dia inteiro
da pescaria e eles ali calados
apanhando umas choupas, uns chumbados,
uns carapaus ou sargos sem berreiro

Não se sabe o que pensa o pescador
se no peixe ou na hora da chegada
daquele barco à Praia da Ribeira

O que se sabe, é certo, é o amor
que ele tem ao mar e à costa alcantilada
que aconchava a Vila da Ericeira !

Ericeira, 1993

NATAL

POBREZA, choro profundo
é não ter PAZ por sinal
Criar FAMILIA no Mundo
é das três fazer NATAL
Lisboa, 1988

( Quadra sujeita a mote --- utilização das palavras POBREZA, PAZ, FAMILIA e NATAL --- apresentada a concurso em programa radiofónico ( Rádio Renascença ), tendo recebido uma menção honrosa )

A AVE


Falésia abaixo, as asas estremeciam
sulcando o espaço aberto co'a penugem
cinzenta clara das aves que só piam
quando vislumbram peixe na babujem

Asas paradas cortando o ar volante
--- Quais planadores revolvendo o céu ---
enquanto um barco ao sabor bamboleante
d'ondas cristais navega em nevoeiro véu

E a falésia donde levantou
ficou tão bela quanto antes 'stava
atapetada em flor's na ribanceira

e o pescador sonhando se voltou
olhando a ave que um peixe debicava
no seu caminho voltando à Ericeira

Ericeira, 1993

PAI SALOIO


Rude dureza do Saloio dimana
da agreste terra que o viu nascer
empobrecido p'lo vilão querer
do poderoso senhor que o engana

sem pejo, sem escrúpulo, com gana
vê-se obrigado à lavra p'ra viver
da terra que não dá para comer
ou se aquecer de Inverno na cabana

Mis'ro estado em que se transformou
sujeito ao foro a que é obrigado
p'la ingrata lei dos humanos que o rodeiam

dia a dia, sob o sol que o tisnou,
amarrado à enxada ou ao arado
colhe as agruras que outros semeiam

Lisboa, 1988

O PORTUGUÊS

Tempos perdidos num mundo revolto . . .
Povo que dorme ou antes sonolento
lá vê passar no cais a sotavento
a escuna breve, o vento em pano solto

Quisera então seguir, futura ideia,
p’ra trás ficou do todo um nada triste,
baloiçou-lhe a mente e tanto insiste,
que acabou por se ver em nova teia . . .

Doces palavras, que ferem ouvidos,
no dia a dia deste povo mudo,
porqu'enganado sem querer razão,

não luta por anseios desmedidos
culpa o destino p'lo seu ar sisudo
e usa p'ra pensar o coração . . .

Lisboa, 1988

JUSTIÇA

Sinto-me triste, é certo, é força d'obra
enquanto a vida corre em turbilhão
É mal da mente que roí o coração
fragmento morto em vida se desdobra

num corpo inerte que de vez soçobra
São muitos corpos, formam multidão
num todo em nada feito de algodão
num caduceu em imagens de uma cobra

´stou numa esfera que não é a minha
--- Pequeno engano --- não sei responder
se me perguntam qual foi a razão

porque fiquei sozinho nesta vinha
onde as uvas estão a apodrecer
e a Justiça não é de Salomão !

Mafra, 1988

A UMA AMIGA


Cabelos escuros, olhar reluzente
mirando par a passo o firmamento
vai buscando a VERDADE em pensamento
em traço largo de calor fremente

Pequena figura, plena de SEMENTE
donde brotará o SOL e o VENTO
que arrastarão num dado e só momento
toda a ternura e carinho . . . tão carente

Voará na penumbra até um dia
em que seu passo deixe de ser triste
sem Monstros nem Bela numa noite fria

Qual túnel onde a VIDA se traduz
não nos mortos ou tristezas que sentiste
mas no AMOR e VERDADE em plena LUZ . . .

Lisboa, 1987

PODER PARA A VIDA ABUNDANTE ( BIBLIA SAGRADA - JOÃO 10.10 )


Os tempos correm
lá p'las ruas fora
ao encontro de algo, que a mente tem
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
e as pessoas fogem
ao romper d'aurora
com medo da noite, que já não vem ;
com medo do medo
que as transforma,
com medo das gentes, que as perseguem
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Dão-lhes conselhos
e leves carícias
na pele humana, que se sente bem ;
são NADA entre o NADA,
que a vista alcança
Nega-se o ESPIRITO, que já lá se tem
sem saber porquê
o QUÊ da mudança,
que tudo indica num homem de bem :
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Num TODO a PALAVRA
de Ordem Divina
reconhece a VIDA com tanta fragrância
num PODER SUBLIME,
que nos edifica
p'ra viver a VIDA em plena Abundância ! . . .

Lisboa, 1988

SONHO DE LUZ

Precisava tocar o firmamento
onde estrelas brilham par e passo
entre róseas papoilas que eu traço
aqui no meu tão triste pensamento

P'ra que surgisse, enfim, um vão lamento,
longo e fraco, mais do que um fracasso
que respondesse aos rogos que eu faço
a este MUNDO louco e tão sangrento

E nele a aurora na manhã gelada
Co'as flores sonhando sob a luz do dia
enfileiradas à beira da calçada

e as aves esvoaçando . . . e eu sorria
deitado com a cabeça na almofada
enquanto do meu sonho me emergia !

Lisboa, 1986

SÃO ROSAS ( TEMA PARA UMA CANÇÃO )

São Rosas,
Ó meu Deus, são Rosas,
São Rosas do meu jardim
São Rosas
e não fui eu quem as pus
nem as colhi para mim

Os sonhos
que eu tive em criança
São hoje uma perfeita oração
As Rosas
com seu veludo e perfume
são HOMEM NOVO
Renascendo o coração

Cavaleiro Rosa-Cruz
Já te não lembras de mim
Manto branco que possuis
Minha sombra de marfim

E a Cruz
que transparece do olhar
É o ALPHA de outra VIDA
Queixumes
não se ouvem nem se sentem
Foram espinhos
São uma esperança querida

Se o AMOR não está ausente,
tudo tem p'ra me lembrar
que a TÁBUA DE ESMERALDA
É a Rosa em meio do mar

São Rosas
Ó meu Deus, são Rosas
São Rosas do meu jardim
As Rosas
São a Cruz e o Seu SABER
São orações sem ter fim

O TEMPLO
do CONHECIMENTO e AMOR
É Força, é todo um bem querer
As Rosas
são o TEMPLO nesta VIDA
São PAZ e PÃO sem se sofrer

Lisboa, 1986

CORRIDAS DA MINHA INFÂNCIA


Descendo a rua em carros barulhentos
--- a principal --- lá íamos direitos
em toscos carros feitos sobre rolamentos
e com madeira de caixotes feitos

e duas cordas --- não eram carros lentos ---
Eram Ti João, que nos faziam jeitos,
e o Silvino --- pregos eram centos ---
p'ra construirmos carros tão perfeitos

E ao fundo da rua era a Cadeia
e o Cruzeiro onde íamos parar
depois de nós corrermos feitos loucos

Por vezes lá levávamos tareia
Calça na mão já pronta a remendar
Mais uma vez ouvidos feitos moucos

Mafra, 1984
Publ. in  " O CARRILHÃO " de 1 de Dezembro de 1985

BOM JESUS

Olhei do luar a ETERNA LUZ
que o Mundo não recebe de mãos dadas
entre pesos de vidas desgraçadas
Uma VIDA se elevou na SANTA CRUZ

No CÂNTICO FINAL que nos reduz
a estranhos seres de luzes prateadas
ao ALTO subiu, andou pelas ESTRADAS
MENINO DE BELÉM . . . O BOM JESUS

Ficou no SEU IMPÉRIO grande Amor
e pendeu sobre os HOMENS a PAIXÃO
que deve ser dita ser de dor

entre os Campos de Sonho e d'Ilusão
subiu o HOMEM ao Céu . . . e seu ardor
em mim preso ficou no Coração

Lisboa, 1984

AS FLORES

Eis que eu passo os olhos sobre as flores
que contentes sorriem nas campinas
bailados de papoilas com boninas
levadas pelos ventos . . . são amores

São cantos que se espalham nos odores
deliciosos que enchem as narinas
que suavizando as faces femininas
lhes suavizam também as suas dores

Enquanto chega a noite e o mar escurece
meus sonhos de pequeno se elevam
tardiamente. Ao sol, quando amanhece,

soltam-se cores . . . fogos que me cegam
meu amor --- vida minha que enternece
a alma tua --- e em mim todas se encerram

Naugatuck ( Connecticut, USA ), 1983

OS REIZINHOS ( EM TERRA DE CEGO QUEM TEM UM OLHO É REI )


Doutos encantos que os meus cantos falam
não se atrevem os homens denegrir
nem no passado buscando o seu porvir
nem c'o presente eles sequer se ralam

enquanto obtusos todos se embalam
em pleitos . . . lutas que me fazem rir . . .
. . . Qual Terra-Mãe . . . Mulheres que ao parir
tais filhos cegos . . . sempre a boca calam

Por medo . . . um nada feito de latidos
conforme vai passando a caravana
no alto se mantêm os reis cegos

e cá por baixo pobres e falidos
os homens jogam a cartada humana
pseudo-felizes de CIÊNCIA vesgos !

Lisboa, 1976

PROGNÓSTICO

Liberdade ?
Um ardor pleno de ternura
onde as crianças sabem comandar
Felicidade ?
Esperança eterna de candura
Olhos nos olhos tombados sobre o mar
e os outros sem saber
que a vida na noite
é um conto de fadas
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Quão doce será o meu viver
quando as notas se perderem
e derem lugar a outros ventos
e baladas . . .

Lisboa, 1975

ORA COMIGO COMPANHEIRO

Deixa-te de fantasias
Deixa-te de rancores
e frustrações
Deixa-te de arrelias
Deixa-te de queixumes
e de imaginações
do nada . . .
. . . de consciências vazias
Deixa-te de julgamentos
Deixa-te de vãos lamentos
pelas estradas
Deixa-te de problemas
de resoluções de esquemas
sem tirar coordenadas
Luta por ti e pelos outros
mas luta com a cabeça sobre os ombros
Nunca queiras cair sob os escombros
que os outros provocaram
apresentando à sociedade as duas faces
. . . e falharam . . .
. . . e falharam . . .
Luta ardentemente
p'la inexistência de classes
Luta até mais não
Luta pela vida de todos
e co'a razão
extingue toda a pobreza
Destrói ricos e poderosos
mas . . . Atenção . . .
só os que oprimem . . .
. . . os tenebrosos . . .
Não ponhas limites às tuas forças
Acaba com as demências
e os ociosos
Arranca as grades da prisão
Encontra para os libertos novos lares
. . . novos trabalhos . . .
e acaba com a solidão
Respira novos ares
Ajuda nos campos a lavoura
e nos mares os pescadores
e nas minas os mineiros
e na vida os lutadores
Faz com que se unam a ti os militares
Luta, já que és um proletário
que tem direito a viver do que produz
Faça-se em ti, finalmente, luz
mas . . . Atenção . . .
Trabalha e reconstrói
. . . o trabalho é vário . . . e dói . . .
Diz e sê o que quiseres
. . . mas operário
e enquanto permaneceres de pé
sobre este mundo
luta por ele
E por tudo isto que te digo
deve brotar de ti calor profundo
que leve por fim à igualdade
Sê HOMEM
Vive para sempre em liberdade
mesmo que para isso tenhas de morrer
para não seres
como muitos outros
um cobarde ! . . .

Lisboa, 3 de Maio de 1974

INTENÇÕES

Qual o discurso que o mundo ordena
onde haja paz, amor e esperança
onde haja vida livre e segurança ?
Nenhum há pois, decerto. É triste pena !

Qual a verdade com que nos acena
Senhor dos Povos, bravo na matança . . .
O mel da Vida, que da morte é dança,
negação total de uma TARDE amena ?

Mas tudo um dia há-de sossegar
--- um dia longe na manhã dos tempos ...
que levará a minha voz p'lo ar

até onde o eco a faça voltar
e com ela outros ecos . . . outros ventos
façam da vida o sussurrar do mar

Lisboa, 1974

AS NOITES DA CIDADE

Passam carros nas ruas da cidade
Pousam pardais em bandos nos telhados
e as folhas das árvores . . . fealdade
. . . sobre os passeios tristes e molhados

Já as noites não parecem as d'outrora
Já há presos na ramona algemados
Gritam a fraco som tão triste hora
as prostitutas, ébrios e drogados

E entre arranha-céus as grandes vias
transparecem no progresso . . . gravidade . . .
No entanto, é o inverno em noites frias

Quanto não valem os campos à cidade
onde há flores e frescura nas espigas
e se respira amor . . . felicidade . . .

Lisboa, 1971

VENTO DA MADRUGADA ( Sonhos )


Piando estava a coruja na montanha
entre os píncaros mais altos que eu vi
Eram queixas continuas que ouvi
Corri p'ra lá forjando a minha manha

Mas entre tantas outras, a façanha
que possível me foi fazer ali
não foi mais que a morte a que assisti
entre as voltas águas de uma azenha

Corria o vento afoito à face nua
entre as ervas na margem de um ribeiro
e a madrugada me surgiu na rua

Foi o fim de um sonho verdadeiro
Por entre as nuvens lá surgiu a lua
e a coruja morreu . . . Sou feiticeiro .

Lisboa, 1971
Publicado em 1972 pelo " Jornal da Paraíba " ( Folha de Sevi Nunes ).
1º. Prémio do Concurso de Poesia obtido na Casa dos Açores no Rio de Janeiro, Brasil, nos 1ºs Jogos Florais, aí realizados em 1973.
Publicado em 1983 pelo " Portuguese News " de Boston ( USA ) e lido nessa mesma data na Rádio de Naugatuck, Connecticut, USA, no programa diário dedicado aos Portugueses aí residentes, patrocinado pelo mesmo Periódico.

RODA DA VIDA


Muitas cartas
Muitos contos
Muita sede de leitura
Muitas voltas
Muitos tontos
em redoma de candura
Muitas letras
Muitos pontos
Alta roda em formosura
Muitos nadas
Muitos sonsos
que já perderam frescura
Muitos " quês "
Muitas perguntas
a quem os já não atura
Muitos MUNDOS
Muitos desgostos
em Vida nem sempre pura

Lisboa, 1970

NOITE DA VIDA


Mais uma noite entre os mortos
entre os vivos
entre os extasiados da vida

Que penso eu ?
Noite perdida ?
Mais uma noite de queixumes
de peregrinos
de cruzes pelos caminhos

E eu . . . só . . . assim . . .
como o vento com os ossos
entre os covais
na noite das agonias
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Que me importa a mim saber quem sou
se não encontro o meu CAMINHO ? . . .
Mafra, 1970